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Veja, a indignação e o jornalismo mané

Um amigo me chama a atenção para a capa da penúltima edição da Veja. Um recado aos “senhores feudais de Brasília”, lembrando que todos somos iguais perante a lei. O recado é dado por “nós, pessoas comuns”. E, de fato, nós, as pessoas comuns, estamos representados pelos rostos “anônimos” (por falta de termo melhor) que circundam o círculo onde figura o texto, bem ao centro da tela. Ao alto, o mantra inaudito, certamente criado na redação, em pleno calor do fechamento: “Basta de impunidade!”

Esse meu amigo comenta, aos suspiros, como se um grande peso tivessa saído de seu peito: “Eles lembraram bem. Isso é uma grande verdade!” É fato. Não há como discordar do 5º artigo da Constituição, a não ser que sejamos abertamente fascistas. Tampouco dá para deixar de se comover com os retratos de tantos compatriotas, lado a lado, indignados com essa corrupção sufocante que, do dia para a noite, se abateu sobre os feudos de Brasília. Sorte que os Estados e municípios seguem incólumes; caso contrário, seria o horror, o horror. E quem o diz não sou eu, é Joseph Conrad.

Traduzindo, o primeiro impulso que tive ao ver a imagem dessa capa foi certamente o mesmo da maioria das pessoas que a avistaram na banca: “bela lembrança”, pensei. “Capa muito bem pensada”. Não tenho a menor dúvida de que foi o mesmo que pensou o desenhista da capa e, naturalmente, o editor da revista, enquanto discutiam: “Que tal uma coisa bem impactante”, sugere um; “Sim, uma coisa simples, mas um recado claro e direto”, empolga-se o outro.

Depois, porém, vem o segundo impulso, que costuma, justamente, ser mais confiável e mais sábio do que o primeiro. Passado o impacto inicial da, vamos dizer assim, ousadia estética, vem o interesse de leitor, que não tem tempo a perder, nem dinheiro sobrando, e não pode comprar qualquer frivolidade que se publique. Pois qual é o interesse jornalístico dessa capa da Veja? Não li a matéria; a imagem da capa poderia ser um ótimo incentivo para isso… mas não foi.

Os brasileiros estão indignados com a corrupção? Só faltava não estarem. Minha primeira lembrança do Brasil foi a descoberta de que as cédulas de dinheiro tinham números de quatro e até cinco dígitos. Minha segunda lembrança foi a indignação com a corrupção. Desde então, estivemos indignados, seja com Maluf e Pitta, seja com compra de votos para a reeleição, seja com Garotinhos e Garotinhas, seja com mensalão, com as brigas de ACM e Jáder Barbalho, com Severino Cavalcante… Agora, em junho de 2009, vem a Veja, mui gentilmente, me informar que o brasileiro está indignado com a corrupção e a impunidade.

Do breve tempo em que estudei e trabalhei com jornalismo, guardo algumas poucas lições, mas nem por isso menos valiosas. Uma delas é que a notícia está no que aconteceu, não no que deixou de acontecer: “A polícia ainda não sabe quem matou”, “O país pode vir a ser invadido”, “O filme está em cartaz há algumas semanas”, nada disso é notícia. “O brasileiro está indignado com a corrupção”, então, é menos notícia do que todos os exemplos acima. No entanto, é a capa da revista de maior circulação no Brasil…

A princípio, faz parecer que não aconteceu nada durante a semana. Por exemplo, se um jornal, e isso só deveria acontecer com quotidianos, publica como manchete que o prefeito inaugurou uma escola, pode ter certeza de que o dia anterior foi uma pasmaceira só, provavelmente feriado no mundo inteiro, com todos os ditadores tomando Piña Colada no sol de Riad. Agora passar uma semana inteira sem acontecer nada digno de notícia no Brasil inteiro? Desculpe, mas…

Ano passado, escrevi aqui sobre Sarkozy, presidente da França, atribuindo à figura uma posição destacada numa corrente política bastante contemporânea, que é a da “política mané”. O princípio é muito simples: trata-se de uma forma de fazer política que leva em consideração o desinteresse (ou a incapacidade) do mané contemporâneo por debater as grandes questões de seu mundo; mais ainda, a política mané leva em consideração que o mané contemporâneo também não crê que seus representantes sejam capazes de debater e tomar decisões em relação aos problemas complexos do nosso tempo (como aliás de qualquer tempo). Para bajular e seduzir o mané, o político precisa se rebaixar a seu nível, pelo menos em aparência. Mas como em política a aparência conta muito (basta pensar na aparência de todo grande líder), ele acaba se reduzindo mesmo.

Tudo isso para argumentar que não é só no campo das disputas de poder que a cultura do mané se impôs nas últimas décadas. A capa da Veja, nesse sentido, é um exemplo ótimo do que poderíamos chamar de “jornalismo mané”. A imagem e a frase impactante falam imediatamente ao instinto de indignação e de simpatia de cada um. Na superfície, é a matéria comunicacional perfeita: transmite sua mensagem imediatamente.

Acontece que a função de uma revista não é transmitir mensagens. Quem transmite mensagens é a publicidade, não o jornalismo. O jornalismo, pelo menos em tese, transmite informação (uma definição dessa palavra não cabe aqui, mas ainda hei de escrever sobre isso). E qual é a informação transmitida pela capa da Veja? Que o brasileiro está indignado com a corrupção. Só resta esperar uma matéria informando que Pelé foi o rei do futebol.

Digo que isso é um tipo de jornalismo mané porque não se comunica com a necessidade humana de saber o que está acontecendo, ou de obter recursos para tomar suas decisões. A única comunicação que a capa da revista faz é com nosso instinto primário, brutal e um tanto quanto tolo de ver confirmados nossos sentimentos abstratos, difusos, indefinidos. É a descoberta de um filão: ganhar dinheiro quando as pessoas dizem: “é isso mesmo!” ao ver uma imagem numa revista. Com isso, elas nem precisam recorrer à outra necessidade, aquela de se informar e ser capaz de tomar decisões abalizadas. Afinal, “se a imprensa, com seus sábios (tão sábios), concorda com o que eu já vinha sentido, quer dizer, pensando, então eu tinha razão desde o princípio”. Eis o raciocínio inconsciente do mané, de que o jornalismo de mesmo nome se aproveita, como a política mané e, por que não, a publicidade mané.

Vejamos (sem trocadilho) o caso de jornais populare(sco)s, como esses que se vendem a 50 centavos por aí, filhotes dos célebres e lamentáveis tablóides britânicos. O que vemos nas capas: às vezes, serviços fundamentais, como aumentos de impostos ou formas de resgatar o FGTS, no que eles fazem muito bem. Mas o mais comum é que eles tematizem: o futebol, depois de um jogo importante; a violência, quando dá pra estampar alguma foto com sangue; celebridades, quando elas aparecem mortas ou nuas; e se não sobrar nenhuma das alternativas acima, mulheres gostosonas. Manchete: “Fogão arrasador” (referindo-se ao Botafogo, único time-eletrodoméstico do Brasil); “Michael já era”; “Ela gosta de rebolar gostoso”; ou outra frase cretina qualquer. Seria isso jornalismo mané?

Não. Isso é sensacionalismo apenas. Nem chega a ser jornalismo, a não ser nos casos dos serviços já mencionados. O jornalismo mané acontece quando alguém resolve tomar esse mesmo sensasionalismo, essas mesmas imagens impressionantes, esse mesmo texto banal, sucinto e sem informações, e chamá-lo de jornalismo. A Veja, afinal de contas, ainda se considera um semanário importante, e não apenas por causa da circulação (caso contrário, o veículo mais importante do Brasil seria o Extra, do Rio de Janeiro). Ao bajular a estupidez do leitor, em vez de exercitar sua inteligência, ela compromete seu próprio futuro, ouso prever.

Muito se culpa a internet pela crise da imprensa escrita. Verdade, mas só metade da verdade. Tão importantes quanto os fatos são as reações aos fatos, a não ser aqueles aos quais é inteiramente impossível reagir, como um tiro na testa. Vendo o público esclarecido fugir para o mundo online, levando consigo a circulação e as receitas publicitárias, o que decidiram os meios impressos, pressionados por todos os lados? Ora, decidiram aumentar o máximo possível a base de leitores, incorporando tanto quanto desse os manés com preguiça para ouvir argumentos, sobretudo aqueles que porventura se oponham a seus instintos. O problema é que esse tipo de mané fica contente de ver a capa da revista na banca, não precisa comprá-la… Ademais, todo tipo de imagem e texto que bajula sua estupidez é tão encontrável na internet como qualquer outra coisa. Então para quê gastar dinheiro com revista?

 

Minha ingenuidade não vai tão longe, a ponto de achar que os editores da Veja não saibam disso tudo que acabei de dizer. Mas se alguém me perguntar se acho que eles têm outros motivos (leia-se interesses) para fazer uma capa tão superficial e pouco jornalista, terei de responder que não faço ideia, o que é a mais pura verdade; afinal, não disponho de dados sobre isso. Seja como for, prefiro deixar a cada um que julgue por si próprio, mas que julgue com raciocínio, não com frases de efeito, porque disso, meu amigo, já estou cheio até aqui.

O rumo dos vasos

Não era sonho quando vi minhas veias correndo em paralelo ao meio-fio. Posso assegurar que eu não estava chapado, nem alto, nem nada. Foi uma dessas coisas que a gente vê com nitidez e sabe que não é invenção da nossa cabeça. Todo mundo já passou por isso. Resumindo, foi simplesmente um dia em que eu acordei metafórico.

Sim, claro. Esse é um traço que já tenho normalmente. Mas, naquela noite, acho que passei dos limites. Quando levantei, já me sentia estranho. Estava escuro ou não tinha clareado ainda, depois de uma interminável madrugada que, de fato, não tinha terminado.

Na mesma hora, eu soube que estava em todas as madrugadas da minha vida, me levantando de todas as camas em que já dormi, espraiado pela minha história e pelos meus cantos, pingando aqui e ali como se pinga pela existência.

Daí minha tranqüilidade. Eis por que não me abalei de ver as veias, que deveriam estar aqui dentro, acompanhando a sarjeta. Segui meu caminho e me lembro de ter comentado, num tom que se pretendia irônico, algo como “Ah, minhas veias”. Muito blasê, como se alguém, algum amigo, alguma mulher, estivesse andando ao meu lado.

Tive, é verdade, um certo receio de que passassem por cima de um de meus vasos; uma bicicleta, ou moto, ou patinete, enfim. À hemorragia de um atropelamento, seria difícil reagir com comentários infames.

Depois, me acalmei um pouco, ao lembrar da biologia que, um dia, aprendi no colégio: na superfície, as veias, carregando o sangue ruim. O sangue bom está lá no fundo, enterrado e protegido. Nenhuma razão para alarme, a confiar na educação que me deram.

Cheguei à esquina e descobri nela um entroncamento de vasos sangüíneos. A visão daquele amontoado de tubos, uns por cima dos outros, sangue por todo lado, pressurizado… enfim, aquilo me causou um sobressalto, finalmente. Meu coração acelerou.

E, coisa incrível, as veias se puseram a pulsar mais rápido.

Deu um aperto no peito. Tudo junto, aquele trânsito insuportável das horas condensadas, aquele fluido vital correndo em desespero para meus tecidos sedentos, e eu, me fazendo de calmo enquanto contemplava aquelas avenidas todas, num bairro interminável, os sinais, os faróis, as válvulas, varizes, acidentes, colesterol, e a pulsação…

Perdi o fôlego. Caí. Por um tempo, não vi nada, depois tive vontade de chover. Era uma noite sem estrelas, que me embaralhava as idéias… Nem sei direito como contar, veja, não estava muito claro. Quis levar a mão ao coração, mas não pude, porque eu tinha esquecido o caminho. Quis acordar, mas me lembrei de que não era sonho.

E, pelas janelas, as luzes acesas: dali desciam as veias, tendo alimentado as lâmpadas e os fogões, ou seja, tendo cumprido seu dever.

Minhas veias tratavam de correr em busca de sua pureza, o novo oxigênio e o novo impulso ao sangue fatigado. Suprema contradição, aliás, um pouco vexatória: meu fluido sabia onde encontrá-lo; eu, não.

Movido por uma curiosidade tanto mais sincera porque eu mesmo não a reconhecia, esqueci da vida e me pus a seguir o caminho, a picada que me indicava o sangue encanado. Esqueci meu próprio rumo e meu destino, esqueci que também buscava renovar a cada dia minha energia e a força de viver. Esqueci das impurezas que eu, ser venoso, também carregava, e que também buscaria trocar, em mil milhões de alvéolos pontilhando a cidade. Esqueci dos pulmões, que aceitam toda a fumaça e a processam, digerem, revendem.

Tudo isso, em todas as manhãs da minha vida, em que eu estive mais metafórico do que o normal. O meu normal, quero dizer.

É ruim o rio, se arfa?

Viver fora, muitas vezes, é como olhar no espelho. Nós nos vemos como se fôssemos algum outro, poucos passos à nossa frente. Mas sempre com o olhar fixo e direto, nunca deixamos de ser nós mesmos a encarar. Isso é verdade para tudo: a política, os costumes, as cidades. Como eu disse, tudo. O mundo estrangeiro é como os animais de laboratório que estudamos, querendo, na verdade, entender nossas próprias existências.

No meio desse tudo, o campo em que minha lógica mais se aplica é a língua. Pelo menos, para mim. A primeira coisa que alguém precisa conseguir quando mora fora é ficar acostumado com a fala dos outros. Mas então, logo em seguida, perdemos um pouco o costume da nossa. Quero dizer, de escutá-la pelas ruas, naturalmente, em seu habitat. Vivendo, em suma.

Com isso, quando damos com ela, inesperadamente, atrás de alguma esquina, ela parece alguma coisa outra. Alguém que não vemos há anos, digamos. Então, descobrimos nossa melodia, que soa aos outros tão particular quanto a deles para nós. Aquilo que nem valia nossa atenção acaba metamorfoseado em tesouro, porque sentimos saudade daquele nosso jeitinho, nosso som, tão mais gostoso que o deles – para nós, é claro, mas ironicamente também para eles.

Mais importante ainda talvez seja o que sucede com as palavras. Tanto é o esforço para enfiar no crânio todos os vocabulários do outro mundo – as gírias, os jargões, os nomes das verduras no supermercado –, que acabamos fechando o acesso a alguns dos nossos próprios nomes. Esquecemos que eles existem. Estão lá, mas, por falta de uso, é como se tivessem morrido.

Até que, um dia, reaparecem. Ou brotam da boca no meio de um papo, ou ouvimos alguém dizê-las, ou as lemos em algum canto. Milagre indescritível, quando as palavras se reencantam. Voltam a ser o que foram para os primitivos, os primeiros hominídeos a dizer alguma coisa. Reencontramos sua sonoridade, que no mais das vezes não passa de um encontro um tanto fortuito de sílabas, mas tem de vez em quando algo de muito sobrenatural. Faz-se evidente, sem mais, o que aquela palavra serve para expressar e o que está além dela. Resumindo, não deixa de ser um aprendizado em poesia, e acho que é por isso que gosto cada vez mais de Manoel de Barros.

Talvez nada disso tenha muito sentido para quem está no dia-a-dia do próprio idioma. Então é melhor partir para os exemplos.

Assistindo a um documentário sobre letras da MPB, eis que me deparo com uma palavrinha extraordinária, pronunciada por um cantor pernambucano: “arfa”. O verso dizia algo como “o peito que arfa”. Pois esse verbo, assim declinado, me encantou, a mim que há anos não o usava nem para dizer que alguma donzela arfava. Aliás, creia-me: “arfava”, “arfante” (eca!) e “arfar” não soam nem de longe tão bem quanto “arfa”. Talvez seja mesmo o acento na primeira sílaba, que, na pronúncia carnal e telúrica de cariocas e nordestinos, parece traduzir na emissão a própria ideia do ar que falta. A quem? A quem arfa, ora. Arfa, arfa, arfa. A palavra, por si só, é quase uma onomatopeia.

Depois, tive um choque diante de uma das palavras mais banais, só porque resolvi pensar nela. Coisa mais besta, fiquei fascinado com “ruim”. Ruim! Nem parece palavra do português, pense bem, a tal ponto que ainda não se decidiram se é monossílaba (rúim) ou dissílaba (ruím). Pessoalmente, mesmo que em teoria esteja errado, prefiro “rúim”. É mais áspera, logo agressiva, logo pior. “Ruím” não parece se referir a coisas ruins, mas a alguma espécie de passarinho que pode aparecer no quintal de vez em quando. “Olha lá um ruím! Que gracinha…” Estou dizendo besteira? É ruim.

Outra linda banalidade que reencontrei: “rio”. Estou tão acostumado a ouvir pessoas dizendo que vêm do Rio (de Janeiro), que corro o risco de perder de vista o sentido original da palavra, o fluxo quase invisível de água que corta nossas cidades e justifica que elas estejam onde estão. Falamos tão naturalmente do Sena, do Tâmisa, do Capibaribe, do Tietê, do Tejo, com seus artigos tão minuciosamente definidos, que esquecemos da verdade que se impõe: esses são todos rios, rios com seu “i” alongado de caminho perene.

Sem esse “i”, caímos num monossílabo que é a terceira pessoa do pretérito perfeito (como um idioma tão lindo pode ter uma expressão tão feia?) do verbo rir: riu. Que é, aliás, como os paulistanos chamam os rios, eles que tratam os seus como depósito de lixo e dejetos menos nobres. Honestamente, não vejo a menor graça nisso. Aliás, a vogal comprida faz falta também a outras línguas, que não conseguem manifestar oralmente o fato de que um rio é um rio, não é uma poça d’água. River, fleuve, Fluß… bah.

Eu teria exemplos bastantes para abrir um novo dicionário; mas é melhor parar por aqui. Afinal, todos sabemos que o caminho da verdade é ser sucinto, não? Provavelmente vou passar o resto da noite pensando em gente que arfa, em coisas ruins, em rios que fluem como uma conversa na minha língua. Nesse meio-tempo, talvez eu me lembre de outras palavras sumidas, que me surpreendem e deliciam.

Um episódio em parte real

Como quase tudo que me sucede por aqui, foi no metrô. Madrugada de sábado, uma das últimas composições, já quando o intervalo entre uma e outra passa dos dez minutos. A namorada e eu cansados pelo horário, um tanto altos, mas nem por isso bêbados, esperávamos no silêncio dos que não têm forças para falar. Enfim veio o trem. Havia lugares vagos, para alívio de ambos, e por milagre eram contíguos. Sentamo-nos, eu muito distraído, o olhar para fora da existência, recusando-se a fixar qualquer objeto. Teria continuado assim por toda a viagem, se não ouvisse o suspiro.
– Tadinho!

Virei o rosto para ver o que se passava. Era um homem muito velho, que tentava alcançar a porta. A lâmpada vermelha já piscava, o alarme soava anasalado e arrogante, mas o pobre ancião não tinha nem condição de se apressar, tal era seu estado de decadência física. Cortava o coração vê-lo ali, radicalmente encurvado, esticando os braços a um passo da porta, no esforço heróico de colocar um pé diante do outro. Elogios ao condutor, que, do outro lado da estação, avistou a cena pelo espelho e atrasou nossa partida. Imagine aquele senhor, tão castigado, tendo de esperar um quarto de hora, em pé na plataforma.

O atraso nos deu a oportunidade de agarrar seus braços e alçá-lo para dentro, eu e um outro sujeito igualmente distraído, absorto na música de seu aparelhinho. Foi só o tempo de ele entrar, a porta fechou-se e fomos postos em movimento. Mas como o trem sacudia, já que sacudir é da natureza dos trens, foi necessário ainda segurar o pobre velho desequilibrado, que não tinha forças de se agarrar ao poste de alumínio, nem contrariar o ímpeto da composição para chegar ao assento.
Ele nos agradecia, meneando a cabeça, enquanto o conduzíamos a sentar-se. Instalado, dobrou-se sobre si mesmo e se pôs a revirar o interior do paletó. Não foi surpresa alguma constatar que sua mão tremia com violência. Uma mão de ossos, pele seca e grandes manchas circulares.

Em nome da discrição que as boas maneiras prescrevem, retomei meu assento e meu ar distraído. Do que parecia um episódio terminado, guardava apenas o sentimento de ter realizado a boa ação do dia. Tão grande era minha distração que não acompanhei a seqüência dos movimentos do ancião e, quando ele me estendeu um pequeno objeto, tomei-o sem atentar para o que era.

Vejo agora que foi um erro. Se já não o tivesse entre os dedos, poderia apenas espalmar a mão para recusar o maço de dinheiro que me fora presenteado. Àquele ponto, a quantia era impossível de estimar. Um canudo grosso feito de notas de cinqüenta. Talvez houvesse mais de mil euros atados com um elástico.

Pasmado, ergui os olhos e percebi que muitos me encaravam com ar severo. Ao meu lado, a namorada apertava minha perna, as unhas enfiadas na carne. À frente, o outro rapaz transparecia o mesmo pensamento que o meu, também segurando um maço de notas, sem jeito, o dinheiro lhe queimando os dedos. Como eu, ele claramente não sabia o que fazer. Mas foi o primeiro a falar.

– Monsieur…

Do colega, meus olhos retornaram ao pobre ancião dobrado sobre o assento à minha frente. Observei-o como antes não quisera fazer. Se me referi a ele como “pobre”, não poderia ter escolhido adjetivo mais infeliz. Cada peça de sua roupa indicava o contrário. Os óculos espessos, de aro dourado, acusavam marca das mais cobiçadas. A gravata vermelha era de seda e estampava um padrão característico dos altos funcionários da burocracia francesa. Nos sapatos, no paletó, na carteira de couro, em tudo estava explícita a condição privilegiada daquele velho que nos causava tanta pena.

Imediatamente, assomou ao meu espírito a questão mais óbvia. Que será que o levara a andar de metrô na madrugada de sábado? Um homem em suas condições, rico e doente, quase inválido, poderia muito bem ter tomado um táxi, se não possuísse um carro próprio, conduzido por chofer de luvas brancas. Como fora parar ali? Formulei internamente uma resposta: a idade afetava sua capacidade de raciocínio. Era, sem dúvida, um senil. Isso explicaria não só sua presença, mas o dinheiro que ele metera em nossas mãos.

Já que o outro beneficiado não ia além do vocativo, eu mesmo tive de superar a surpresa e formular um protesto.

– Desculpe, o senhor se enganou. Não precisa dar recompensa, ajudamos por ajudar.

O outro concordou com a cabeça. Fiquei com a impressão de que ele estava aliviado. Mas o velho se recusou a recuperar o dinheiro.

– Não é recompensa. É presente.

Dessa vez, foi o outro que falou, argumentando com a típica linguagem empolada dos franceses.

– O senhor compreende que não é habitual receber somas de desconhecidos, sobretudo com um valor tão elevado…

Em voz baixa e sumida, firme ainda assim, o ancião interrompeu a declaração de recusa e se pôs a explicar, lentamente e em tom autoritário, por que nos deslizara os canudos de dinheiro. Anunciou que estava muito doente e, como podíamos perceber, muito velho. Sabia que seu futuro não contava mais do que um par de meses. Possuía dinheiro demais, pretendia distribuí-lo e se achava no direito de fazê-lo da maneira que escolhesse.

– Minha fortuna, podem acreditar, me serviu bastante, por décadas e décadas. Lutei muito por esse dinheiro, mas também aproveitei como ninguém. Agora chega. Passei no banco, tirei tudo que tinha no caixa. Vou fazer a mesma coisa amanhã e até o corpo não aguentar. Vocês dois me ajudaram, parecem bons garotos, façam o que quiserem com o dinheiro. Comprem alguma coisa, jantem no Alain Ducasse, a escolha é de vocês. Se quiserem uma dica, sugiro viajar. As viagens são a melhor coisa que o dinheiro pode oferecer.

Os olhares que até então me cobravam, agora só exalavam curiosidade, temperada de uma ligeira inveja. Eu cumprira meu dever, recusara o dinheiro. O que fizesse daí por diante não sofreria de carga moral. O mesmo valia para meu companheiro de berlinda, também observado e incomodado. Percebi que, de uma hora para outra, minhas decisões seriam tomadas diante de uma plateia. Como se vivêssemos um estranho programa de auditório gravado no último vagão do metrô, uma composição que seguia seu caminho a chacoalhar e guinchar, fingindo que em suas entranhas só acontecia o perfeitamente corriqueiro.

Sem recursos, fiz o que deveria ter feito em primeiro lugar. Busquei os olhos de minha companheira. Ali, ao meu lado, ainda apertando com força a minha perna, ela me encarava com uma espécie de piedade, ciente de que não há dor pior, para mim, do que ser observado. Em sua expressão, pude ler o desejo de que nada daquilo tivesse acontecido, que pudéssemos simplesmente chegar em casa, como todas as noites, conversando sobre os eventos do dia, depois ver um filme e dormir em paz. Pequenos, humildes, felizes, sem incômodo.

Fui dominado por um leque de sentimentos inconciliáveis. Quis saltar na primeira parada e correr para a rua, longe dos olhares, só eu e minha consciência abalada. Quis ofender o velho, atirar-lhe o dinheiro ao colo, vociferando que a origem só poderia ser suja, indigna, corrupta. Quis arrancar o elástico que prendia o cilindro e lançar o dinheiro para o alto, de modo a que os demais viajantes saíssem da confortável posição de audiência para o ridículo de disputar dinheiro.

E quis chorar, mas não chorei. Não sei por que quis chorar, não sei por que não o fiz. Nem sei dizer quanto tempo se passou antes que eu olhasse para meu duplo, a poucos passos de mim, e o surpreendesse também congelado, esperando minha reação como eu esperava a sua. Acho que ele se dava conta, ao mesmo tempo que eu, de um detalhe muito estranho.

Aquele dinheiro não tinha graça. Se, como sugerira o doador, eu comprasse um computador, um jantar caríssimo ou uma viagem deliciosa, seria uma aquisição morta, frustrante. E fugaz, porque alimentada por um capital de ilusão, alheio, casual. No dia seguinte, deixaria como legado um rastro de pobreza. Aquele papel valioso, de que ambos certamente temos necessidade, nenhum de nós o queria de verdade. Entretanto, ainda que não o quiséssemos, tampouco tínhamos coragem de devolvê-lo. Honra é honra, orgulho é orgulho, mas dinheiro, acima de tudo, é dinheiro.

No impasse, o elemento preponderante era, sem dúvida, a presença do público. Cheguei a desejar que fosse coisa da minha imaginação a idéia de que o vagão inteiro estava submerso no suspense, impaciente para acompanhar o final da história, pronto para apertar os celulares e votar na ação que os protagonistas deveriam seguir. Pois bem, os protagonistas éramos eu e o desconhecido que se tornara, de súbito, meu irmão.

Mas veio a prova de que estávamos, de fato, no centro das atenções. Chegamos a uma estação em que se cruzam quatro linhas de metrô e duas de trem. Onde centenas de milhares de pessoas trocam de direção a cada dia. Mas ninguém desceu, ainda que muitos já estivessem colocados diante das portas. Subiram boas duas dúzias de pessoas, que se espremeram no espaço que deveriam deixar os que saíssem. Não entenderam por que havia tanta gente e uma atmosfera tão pesada. Mas para mim foi uma ponta de alívio.

Só uma pessoa se mantinha alheia ao suspense. O velho, entregue à caquexia, olhava para os próprios joelhos. Balançava a cabeça, com seu cabelo esparso e espetado. Senti raiva, pensei divisar um sorriso de escárnio, tive ganas de agredi-lo como a um cão indefeso. Se o fizesse, como reagiria a plateia? Que me aplaudissem e louvassem, que me linchassem e vaiassem, não sei o que seria mais abjeto. Alguém, ali, talvez já tivesse uma câmera de vídeo empunhada, pronta para tornar a mim e ao outro rapaz estrelas da internet.

A não ser pelos recém-chegados, para quem tudo devia andar na mais perfeita normalidade, não havia conversas. Ouvíamos o tempo que me apertava o pescoço, sentíamos a fricção dos trilhos. O metrô já chegava à estação seguinte, a penúltima de nosso percurso programado, e eu ainda só conseguia pensar em desaparecer.

A claridade da plataforma invadiu as janelas, despertou-me do torpor. Freávamos. Novamente, busquei a opinião de meu colega de impasse. Percebi que ele tremia um pouco. Tive esperança de que seria ele a romper a teia e resolver a situação. Aguardei, olhos cravados nos seus. E ele não me decepcionou. Quando paramos, projetou-se para cima de mim, tão rápido que não tive tempo para o sobressalto, agarrou o dinheiro das minhas mãos, aproximou o rosto do meu, encarou-me com olhos fixos, olhos negros e decididos, e disse, mais ar do que voz:

– Je ne supporte plus!

Vendo que eu meneava, inteiramente de acordo, ele se ergueu e foi até a porta. O alarme se pôs a soar, mas o prazo curto só aumentou sua determinação. Ele ergueu a alavanca. Ouvimos o estrondo do metal, sentimos a brisa fresca e malcheirosa invadir o vagão, acompanhamos o gesto com que ele atirava ao longe os dois cilindros valiosos, grunhindo de raiva.

Enquanto meu novo amigo recuperava o fôlego, acompanhando o dinheiro que rolava para o canto da plataforma, as portas se fecharam novamente diante de seu nariz, velozes como lâminas de guilhotina. Quanto à fortuna, ela seria de quem a encontrasse, provavelmente um mendigo ou um gari. Nossa, não seria.

Cheguei a fantasiar que o catalisador de toda a história desapareceria de repente ou revelaria ser um demônio, um duende, qualquer ser sobrenatural. Mas qual, o velho continuou encalacrado, olhos nos joelhos, como se nada se passasse à sua volta. Uma frieza tamanha me causou calafrios e reforçou minha convicção de que algo ali não podia ser humano.

Recebi um abraço da namorada e pude perceber que ela passara os últimos instantes com a respiração presa. Eu também. De volta à calma, também veio o outro, o corajoso, para me cumprimentar. Pus-me de pé e apertamos as mãos. Mas aquele não poderia ser um cumprimento formal, desses que se dão no início das reuniões de negócios. Apesar de nem sabermos o nome um do outro, trocamos um abraço forte, com tapa nas costas, como se fosse no Brasil.

Logo, porém, fomos lembrados de que não estávamos sós e o episódio escapava à nossa esfera. Antes que nos afastássemos, alguém começou a bater palmas. Em um segundo, todo o vagão aplaudia, até mesmo algumas das pessoas que vinham de entrar e praticamente não acompanharam o ocorrido. O ancião continuava atento a seus joelhos.

O desconforto voltou de um golpe. Tudo começara por causa de uma figura surgida do nada, e de repente queriam me fazer de celebridade. Esperavam sorrisos, um aceno, mais abraços e cumprimentos, fotografias, talvez até autógrafos. Mas eu não tinha escolhido, não queria nada assim. Só pensava em deixar aquele ambiente claustrofóbico e ser esquecido por todos eles. Uma hora da manhã de um sábado qualquer, mas era como se apresentássemos um programa de televisão. Desconhecidos sorriam para nós, faziam perguntas, espoucavam flashes indiscretos. E não teríamos mais nem ao menos o consolo de uma viagem luxuosa ou um jantar elegante.

Pareceu uma eternidade até que a estação chegasse. Enfim, era a nossa. Descemos. Junto conosco, vieram meu bravo companheiro e uma multidão insuportável, incluindo sem dúvida muita gente que já deveria ter saltado. O doador senil continuou na mesma posição, olhos nos joelhos.

O trem partiu, a turba se dissolveu, o pesadelo acabou.

Perguntei ao novo amigo:

– Você também mora no bairro?
– Não – ele respondeu, com seriedade quase solene. – Moro no final da linha, mas acho que prefiro pegar o próximo trem.

Jamais compreendi tão bem uma decisão quanto aquela, apesar dos doze minutos de espera que ele teria pela frente. Pensei que poderíamos lhe fazer companhia, mas os olhos da namorada já mal se mantinham abertos e minhas próprias pernas bambeavam.

Cumprimentei-o mais uma vez e, sem outras palavras, nos separamos. Apesar do episódio intenso que nos uniu, espero que jamais tornemos a nos encontrar.

Conhecido entre os traços

Fotograma do primeiro filme da série O Poderoso Chefão, com um close do ator Robert Duvall

Executa seu caminho no meio de outros tantos corpos, sóbrios no vestir e no pisar o pavimento, cada um em respeito solene ao próprio traçado e nada mais. A tarefa não exige esforço algum, como nunca exigiu, se não for a observação estrita do acordado, do decidido há tempos.

A única novidade é quase nada. Uma força esquisita que empurra para trás. Um pouco incômoda. Está presente, insidiosa, desde os primeiros passos, ainda sobre o carpete da sala de estar. Nunca tinha acontecido, essa energia pesada, negativa, que chega sem anúncio, vinda não se sabe de onde.

Com ela, abafando o som dos outros corpos, a percussão das solas e saltos, os grunhidos da cidade a acertar a disposição apropriada, só ascende à consciência a vibração de um pensamento: a repetição monótona de uma expressão vulgar. O palavrão se valoriza ao raspar, áspero, uma garganta imaginária. As idéias que vêm do fundo permanecem insondáveis. Misteriosos como o empuxo que se opõe ao impulso adequado.

Nada de notável.

Sim, sem dúvida, condições objetivas existem. Questões pragmáticas. Uma pequena coleção de falhas, lado a lado com a lista humilde de sucessos, e o equilíbrio pende discretamente para o lado pessimista. Sem esquecer o inevitável; dessintonia conjugal, fantasias capciosas, contratos rompidos, o sucesso profissional postergado, perspectivas sufocadas.

Uma inclinação do momento, coisa de hormônio, conjunção astral, seja o que for, provê a condição que desequilibra a balança. O prato mais pesado é o que verga de amargura. Na liga, entremeados, o cansaço das férias por tirar, a frustração de estar aquém das ambições sexuais, a dificuldade em aceitar que o tempo se arrasta, como sempre se arrastou para todos.

Entre a força anônima e a imagem difusa de todos os nomes, a mente equilibrada se vê na obrigação de decidir uma estratégia. Pois a retirada é uma estratégia sensata. Vergonhosa, mas sensata. Antes retroceder a ser carregado pelos ventos. Cobrir com as mãos o rosto é melhor, muito mais digno, do que arrancar os olhos para seguir na ofensiva.

Encontra uma superfície horizontal para largar o peso do corpo. Fria, seja o que for, exerce bem o papel de um banco. Então basta para retomar o ânimo, que escapara em algum momento do percurso, sem se dar a perceber.

Ao lado, um outro homem. No turbilhão dos vetores que disputavam um corpo, a cegueira temporária o ocultara. Mas ele esteve sempre ali. Deitado, encolhido, abraçado aos próprios ombros como à última posse que lhe resta. Finge dormir.

Observa-o. Um mendigo. Com todos os atributos de quem vive na rua, procurando a cada noite um novo abrigo. Andarilho debaixo do sol, encalacrado sob as estrelas, eis sua única certeza. Um homem que se apropria da cidade sem que nada na cidade lhe seja próprio.

Estranha figura. Um rosto familiar. A tal ponto que os olhos se fixam sobre os traços e rechaçam o esforço de afastamento. Feições que poderiam ser reconhecidas debaixo da escuridão mais profunda. A familiaridade produz um calafrio. As pontas dos dedos gelam, os pelos do braço eriçam. Quer tocar o vizinho, pousar os dedos sobre seu ombro, depois sentir a textura da pele, devagar. Não ousa. Mas não é asco. Não é nada. Apenas encara.

O homem sente que é observado. Sacode-se bruscamente, não a ponto de assustar. Abre enorme a boca, como para escarrar um grito. Desiste. Emite apenas o hálito de álcool. Põe-se sentado, lentamente, na calma de quem não acompanha as centenas de trajetórias riscadas pouco adiante. Desperto, seu rosto é jovem. Terrivelmente familiar. Alguém do passado, talvez. Impossível não fitar. Um olhar fixo assim deveria incomodar, deveria ofender, mas o homem não deixa ler sua opinião. Apenas exibe a face, os traços que parecem os mesmos de algum sempre.

Passado um instante, o homem desvia sua face conhecida. Lentamente, apóia-se nas duas mãos para se erguer. Como um velho. E se põe em marcha. Termina cada passo antes de começar o seguinte. Cambaleia, mas projeta o corpo e conquista o espaço. Desloca-se em curva, pende para um lado, deixa a impressão constante de que vai cair.

Mas o homem segue. Uma atenção aflita o acompanha à distância. Guarda no inconsciente a linha imaginária que o corpo descreve, no menor detalhe de sua irregularidade. O arabesco intercepta os riscos deixados pelos outros pares de pés, como se os conspurcasse. Desenho livre, atinge as trajetórias de todas as direções e não pede licença. Insolente, a figura.

Salta quando crê que o homem vai ao chão. Ensaia apoiá-lo com o braço, mas interrompe o gesto em pleno ar. Assim permanece, um passo atrás do rosto familiar, sem a ousadia de aproximar-se. O reconhecimento, que atraía, agora repele, com intensidade parelha. Porque a posição é outra; ou porque, junto com o mendigo, o universo se deslocou; ou porque algo emergiu à consciência.

Está claro, mas não nítido, por que o desgraçado é assim tão familiar. As paralelas que deveriam se encontrar no infinito podem sofrer desvios. Podem chocar-se ainda no tempo. Eventualmente, acontece.

Põe-se a correr. Correr é a saída. As funções mecânicas assumem o leme da mente e a recolocam no trajeto planejado, sem empuxo que arraste, sem força alguma conclamando a retroceder. Quando dá por si, já está em pleno destino, agachado, apertando os olhos para escapar à claridade.

Da experiência, somente uma convicção que se insinuara. A desgraça é livre, é fascinante e familiar. Ei-la, a verdade. Parece temível, a desgraça. Mas dá o poder de interromper e cortar todas as trajetórias com a mera vontade.

Só que as trajetórias, conforme é ensinado, acordado e decidido, são sagradas.

O garoto que mexia com letras

Meu garoto estava inconformado com as letras como elas são: sempre as mesmas. Que saco, ele se disse: um som, uma figura. E às vezes a gente ainda é obrigado a ler as palavras de um jeito que não é o que está dito nas letras. Isso não é bom.

Depois, ficou maravilhado de saber que existiam outros alfabetos: no grego, o Ene é um Vê; o Erre, um Pê; o Dê, um triângulo. No russo, tem uma mesa com três pés e um É ao contrário. (esse alfabeto se chama cirílico. Ah, belo nome.) E o chinês faz de cada palavra um desenho de bastonetes e curvas. Acontece que nesses alfabetos, também, as letras são sempre do jeito que são. E isso, ele já tinha entendido, não é bom.

Meu garoto queria que as letras mudassem tão rápido, tão sempre, quanto o mundo. Quer dizer, o mundo que ele via, um mundo que não pára quieto. Meu garoto, que não costumava sentar o facho, se trancou no seu canto e não saiu de lá durante dias e dias. Meu garoto não sentiu fome, nem sede, porque tinha quem cuidasse por ele dessas preocupações menores.

Quando apareceu de novo, trazia um protótipo. “Olha só, ele dizia, é um Bê com três barrigas!” E saiu mostrando para quem aparecia à sua frente. Ele esvoaçava, orgulhoso de sua invenção. Uma contribuição do meu garoto à escrita no Ocidente. De cada interlocutor, ele recebia um sorriso complacente e uma festinha na nuca. Como a festinha que recebem os cãezinhos, e ficam contentes.

Mas não era um cãozinho; era meu garoto. Ele não queria festinha, queria mudar o mundo. Pelo menos uma parte dele, nem que fosse só uma letrinha. E sumiu de novo. A casa virou casa sem garoto, casa de gente grande. Até que ele voltou com outra novidade. Uma folha de papel em branco como a outra, com um Bê que parecia perfeitamente normal. Mas é claro que nada pode ser tão normal assim, em se tratando do meu garoto.

Entre as duas barrigas do Bê, as barrigas de sempre, ele tinha imaginado uma terceira, menor. Ela não deixava a linha do encontro das duas outras tocar no bastão vertical, o principal, preenchido com um traço mais vigoroso do lápis para reiterar sua preponderância. E a explicação: do meio do Bê, nasce um Dê. E essa letra é o nascimento, ainda no meio do caminho.

Mas por que não é um Cê?, perguntaram. O Cêe vem logo depois do Bê no alfabeto. Meu garoto sacudiu a cabeça: o alfabeto não está com nada, ele ensinou, como ensinam os garotos aos grandes quando sabem melhor. O Dê vem do Bê e o Cê vem do Ó. Não é óbvio?

Daí em diante, meu garoto entrou num movimento de dedicação integral à sua invenção, fusão e gênese de letras para um alfabeto mais criativo ou dinâmico. Era um tal de Tê virando Efe, Éle com dois bastões verticais, Agá explodindo do meio de um Á… Em dia, ele veio com um círculo cortado no meio e ficou muito decepcionado ao descobrir que aquilo já tinha um nome: era um Téta, era grego e já era muito antigo…

Não demorou um mês para que as paredes estivessem cobertas com estranhos símbolos, cujo sentido era derivado de outros tantos símbolos, ainda com um emprego por descobrir. Estou certo de que eram, no total, mais do que cem, vá saber. Da manhã até a noite, meu garoto mexia nas suas invenções. Ou as modificava, ou as contemplava, ou engordava seu portfólio.

Cheguei a imaginar que isso seguiria pelo sécula seculórum, mas não: de repente, ele parou. Uma certa melancolia no olhar do meu garoto denunciava que alguma coisa não estava bem em seu lugar. Era isso mesmo: ele tinha percebido que, uma vez que existiam, suas novas letras estavam existidas e eram existentes. Paravam de andar, tanto quanto os alfabetos que ele tinha um dia esnobado.

Mas não haveria de ficar por isso. Meu garoto nunca se dá por vencido. Um dia, sumiu de sua fronte aquele ar tão melancólico. Uma luz tomou seu lugar. Convenhamos que era esperança… mas ele a chamava de “ideia genial”.

Mais um tempo trancado na cuca e ele voltou com outra criação: em vez de inventar novas letras, ele soprava a poeira das velhas, encaixava assim e assado, uma de cara para a outra, em cima, embaixo, enfim. Ele obrigava os sinaizinhos cansados a gritar e dizer coisas novas, coisas que nem eles mesmos tinham pensado, não sabiam que podiam representar.

Disso, ele jamais se cansou. Segue fazendo a mesma coisa até hoje, ainda com o mesmo prazer, neste tempo acinzentado em que já ninguém mais quer tratá-lo por garoto.

Os oprimidos somos nós. Augusto Boal: 1931-2009

Nem me lembrava de que Augusto Boal estava com leucemia. A notícia de sua morte acabou sendo uma surpresa, e reativou meu estranho gosto pelos obituários. Ainda não vi as matérias da imprensa brasileira sobre a partida do nosso velho mestre do engajamento teatral, e nem sei se devo. Me disseram que, no mais das vezes, foram só notas de rodapé; ademais, já sei que o máximo de profundidade que posso esperar é a constatação de que o Teatro do Oprimido tinha uma inspiração “de esquerda”. E é verdade, claro… até porque só na esquerda se fala em opressão. Os religiosos preferem o termo “exclusão”, e a direita, “marginalização”. Mistérios do idioma…

Opa, nada de digressões. O assunto, hoje, é o Boal, que não era um homem da política, embora fosse politizado e embora tenha sido vereador no Rio. Boal, formado e doutorado em química, era um homem do teatro. Perder-se em considerações sobre suas inclinações políticas, deixando de lado seu teatro, é nada menos do que cretinice. Sendo assim, o que interessa é perguntar: qual é o segredo de seu teatro, que o alçou à história?

Boal fazia parte daquele estranho grupo de artistas brasileiros que vivem um pouco no ostracismo no Brasil, mas são reverenciados no resto do mundo. Não sei se é por causa dos muitos anos de exílio de um sujeito que, enquanto a ditadura não conseguiu metê-lo no pau-de-arara, dirigiu o Show Opinião no Rio, comandou o Teatro de Arena em São Paulo e levou ao palco os textos mais contestadores de Vianinha e Gianfrancesco Guarnieri. Talvez, de fato, sua passagem por Argentina, Peru, Portugal e França, entre outros países, tenha disseminado tantos centros de Teatro do Oprimido por aí, que os brasileiros achem desnecessário comentar.

Pode ser. De qualquer forma, desmistifica aquela velha história de que o brasileiro só reconhece seus gênios depois que o estrangeiro os aplaudiu. Isso só é verdade, digamos assim, quando convém. Contudo, por algum motivo, alguém que vem interromper o curso normal da vida para colocar coisas em questão é qualquer coisa de muito exasperante para o brasileiro. Não convém… e é o caso do Boal; talvez isso explique melhor o silêncio em torno dele. Fico imaginando o que diriam certos articulistas e blogueiros se, no ano passado, ele tivesse ganho o Prêmio Nobel da Paz a que foi indicado.

O fato é que, com o Teatro do Oprimido, Boal foi aquele que conseguiu os melhores resultados, na arte do ator, para uma tendência que permeou talvez todas as formas de expressão artística a partir dos anos 60: sair à rua. Isso não é nada fácil e não deve ser confundido com apresentar-se na rua ou colher material e inspiração na rua, coisas que sempre existiram. Trata-se, na verdade, de introduzir a rua no campo da investigação estética. Por rua, entenda-se vida, porque a rua é o terreno do imprevisível, do anônimo, do fugaz. Justamente onde a vida é menos percebida e, por isso mesmo, mais latente.

Um bom exemplo é o do artista plástico francês Daniel Buren, que emprega sempre a mais banal das estratégias – listas brancas e coloridas ou negras, de tamanho definido e imutável há quarenta anos – para emoldurar as paisagens urbanas. Com isso, o transeunte, o cidadão, é levado por seu próprio inconsciente a se dar conta do lugar em que vive, de tudo aquilo que ele sempre tomou por irrelevante, invisível, indistinto no meio da percepção borrada que todos temos de nossa existência.

Se artistas como Buren transformam a cidade em arte pela introdução de uma moldura, Augusto Boal transformava o cidadão em ator pela reversão das expectativas. Ao mesmo tempo, o gesto simples de inventar situações apenas ligeiramente desviadas do banal transformava os artistas proponentes numa espécie de plateia. Em outras palavras, a separação milenar entre palco e público se desmaterializou pelo abraço de Boal. Um abraço perturbador, mas caloroso mesmo assim.

O oprimido em questão é, sim, em primeiro lugar, aquele que jamais teve voz no teatro, na política, na vida, em lugar algum. Em outras palavras, a imensa população do “andar de baixo”.  Mas não se limita a isso. Num ambiente urbano maquinal e racionalizado, onde o indivíduo está reduzido a um glóbulo vermelho na circulação incessante, cada um de nós é um oprimido. Por mais que falemos, critiquemos, peroremos, somos todos sem voz, como aqueles que Boal queria atingir. Talvez o mais perturbador, nas intervenções do Oprimido, seja essa constatação: o som que sai de nossas bocas no dia-a-dia nada mais é do que a reprodução desse dia-a-dia. Isso, claro, até que sejamos chamados a dar um passo fora da linha.

Levar o teatro para a rua (ou, melhor dizendo, para a vida real) não precisa nem de uma rua. A primeira experiência que levou ao Oprimido foi o Teatro-jornal, que Boal praticava no Arena de São Paulo no início dos anos 70. Para quem esqueceu, jornal brasileiro, nos anos 70, só publicava as notícias que interessavam à ditadura, quando e como lhe interessavam. Dramatizando essas notícias, numa sala de aula, num palco, em qualquer lugar, muito do que elas não diziam vinha à tona.

Depois, com o Teatro Invisível, um peteleco de situação inesperada transforma o espaço-tempo do esquecimento diário num espetáculo de improviso e consciência. Ironicamente, pelo fato de ser invisível, o teatro de Boal tem o poder de tornar visíveis todas aquelas coisas que normalmente não vemos ou não queremos ver. Nesse intuito, assim como para Daniel Buren bastam listas alvinegras, para Boal bastava uma fagulha banal – uma discussão de casal, uma carteira perdida, um pedido de ajuda – e o mundo inteiro se tornava arte, da noite para o dia. Numa metáfora um pouco pobre, Augusto Boal foi o escultor que se despreocupou do velho hábito de talhar o mármore e preferiu esculpir um magnífico pedestal, com que atraiu a atenção para o mundo em que realmente vivemos.

Agora, o pulo do gato: por que será que somos – nós, os brasileiros – sempre tentados a considerar qualquer iniciativa de deslocar o eixo da percepção individual como uma perigosa atitude esquerdista-subversiva-revolucionária? Será possível que toda busca de uma consciência de si e do mundo, fora do quadro corrente das nossas condições de vida, seja um atentado à ordem social? Esqueçamos, por um momento, a posição política que Augusto Boal, de fato, possuía. Será que qualquer indivíduo, sendo levado a olhar para sua vida e seu dia-a-dia de uma outra maneira – e uma maneira produzida pela sua própria racionalidade –, é um candidato a derrubar os fundamentos da sociedade?

É o que parece indicar a desconfiança que muita gente dedica ao trabalho de Boal. Porém, se isso for verdade, nada mais é do que um sintoma de que algo vai mal. Se a ascensão de pessoas comuns a uma compreensão mais autônoma de sua própria existência implica um risco para a sociedade, então essa sociedade é assustadoramente instável. Deve estar assentada sobre bases um tanto frágeis, para não dizer inviáveis. Não precisa ser nenhum revolucionário para se dar conta disso, mas devemos a Boal a possibilidade de constatá-lo. A Boal e, claro, à arte.

Mais sobre Boal e o Teatro do Oprimido:

CTO Rio

Itaú Cultural

Sobre a morte de Boal

Wikipédia (inglês)

Núcleo de TO em Porto Alegre

Um milagre basta

Abri mão de pensar num sentido para a vida graças à chuva de pétalas de cerejeira e folhas de chorão. É um fechamento tão tranquilo para o ciclo da beleza, que não pude evitar uma tranquilidade semelhante para o ciclo da existência. Simples assim. Antes que o mês de abril possa começar e terminar com seus míseros trinta dias, os galhos se enchem de flores, como se explodisse dentro deles uma matéria inquieta de cor e vida, depois as pétalas se desmancham com o vento e dão lugar às folhas. Mas estas últimas tampouco hão de durar mais do que seis meses, sete no máximo, antes de deixar novamente nus os galhos…

E assim por diante, como todos sabemos. E, como todos sabemos, é esse o mesmo círculo a que obedecem todos os viventes, desde o bilionésimo do bilionésimo ano do passado, desde que cadeias de matéria deram para se replicar. Coisas brotam, coisas secam, nas árvores, nos mares, nas savanas, como na minha cabeça brotam ideias, e são projetos, depois secam, e são desistência.

A florada de um cerejal nao nutre ambições de beleza e faz muito bem. Nada tem muito sentido para um galho coberto de flores, que só sente de fato a inclinação de atrair abelhas – e as abelhas vão, atraídas pelos formatos apetitosos. Estirado, algo preguiçosamente, sobre um branco de praça com vista privilegiada para a colheita dos insetos, vejo, quase distraído, a repetição do que aconteceu no ano passado, no ano em que nasci, antes mesmo que os anos fossem contados. E me ponho a citar: é o ciclo, o ciclo da vida, a vida é um ciclo… e adormeço.

Caem as pétalas e adubam a próxima florada, as folhas virão para tomar seu lugar e encher de energia um infinito de reações químicas, que jamais verei de perto. E nem preciso, para saber que elas só fazem manter e criar mais flores, mais folhas, mais galhos, mais reações. Eu, adormecido, embalado por uma vida em ciclo: acaba para recomeçar, morre para dar mais vida… Um dia, começou sem antes ter acabado; outro dia, vai acabar sem recomeçar em seguida, mil anos antes que o sol, como promete a grande ampulheta cósmica, exploda e engolfe nosso planetinha.

Não que as plantas se perturbem de saber, se souberem, que, depois de tanto tempo, esse brota e apodrece vai dar em nada. E eu, que em muito menos tempo também vou dar soma zero, ainda gasto meu tempo desperto pensando nessas coisas. Jeito besta de ocupar as décadas (um nada!) que me restam! Bom, no fim das contas, esse pensamento e todos os outros se valem, como se valem as abelhas se o assunto é disseminar o pólen. Algo em mim me diz que eu não deveria apostar tanto na minha própria duração para além de mim mesmo, mas…

Vendo tanto renascer, tanto rebrotar, acabo caindo na tentação, doce e idiota, de acreditar que um fim nunca é fim de verdade. Alguma coisa dura, quero; alguma coisa renasce, desejo. Meu lado ingênuo aponta para a beleza do universo, diz que é milagre, e garante que, entre as coisas que não vão terminar quando chegar o meu fim, estou eu mesmo.

É claro que isso não pode ser verdade. Mentira grossa, decerto. Que tem a ver com a beleza que admiro com a transcendência dos meus olhos? Minha carne fenece tão facilmente quanto as folhas do outono, e então, para ser direto: adeus beleza, adeus olhos. Continua o ciclo, mas eu pulei fora dele como essas pétalas que flutuam no vazio. E se meus braços e pernas são feitos do mesmo material que esses galhos, então não valem mais do que eles ou o ciclo de que fazemos todos parte.

Porém, já sei… que mudem as estações, não vai mudar a admiração que tenho pela sua regularidade, o milagre da sua reprodução, e a suspeita pouco justificada de que toda essa vida tem algum sentido e obedece a algum desígnio. Parece não bastar a evidência de que toda a beleza do universio é a beleza que eu aprecio, e todo o sentido da vida é a vida como eu a sinto. Deve ser isso. O verdadeiro milagre da vida é ter engendrado um ser que a sente como bela e tem amor ao ciclo, a ponto de desejar ser maior do que ele. Para mim, já é milagre suficiente.

As concubinas do sultão

* Prometo que este é o último da série de textos antigos, pelo menos por enquanto. Foi escrito há mais de um ano, ou seja, a tal “recente” já não tem nada de recente… *

Uma cidade se conhece por seus espaços públicos. Construam-se os edifícios que forem, eles obedecerão sem recurso aos planos e projetos que o arquiteto aprendeu em sala de aula ou desenvolveu em laboratórios e escritórios; no interior, a mais transparente das atividades se dá às escondidas, atrás do concreto, entre as divisórias de compensado, de um pavimento a outro. Se isso parece um paradoxo, que seja. Mas os prédios jamais darão sentido a uma cidade. A não ser, eventualmente, para aniquilá-la, com seu silêncio grosseiro e pelo furto escandaloso de nacos do horizonte.

No espaço público, as coisas acontecem segundo o que são em seu instante. Ainda que sejam planejados os parques e passeios, geométricas as praças de um qualquer núcleo urbano, é muito limitado o poder que a habilidade dos construtores terá sobre o que se passe nos paralelepípedos e gramados. Que podem os técnicos calcular quanto aos encontros, os olhares, os figurinos, o linguajar? Os imóveis pertencem aos proprietários, pois não; os apartamentos são dos inquilinos e os escritórios, das empresas. Mas a rua pertence ao homem. A ninguém mais. Talvez por isso assuste tanto os misantropos.

A culpa dessas minhas reflexões recai toda sobre uma recente passagem por São Paulo. Curta demais para encontrar todos os velhos amigos e tão atribulada que mal pude rever os lugares determinantes do que sou – para o bem e para o mal. (Lembro de alguns que foi impossível visitar: o Bar do Cidão, os teatros da praça Roosevelt, a rua 13 de Maio com o impagável Café Piu-piu…) Mas não foi uma visita tão sumária que me bloqueasse o bombardeio de sensações e lembranças. Umas doces, outras amargas, as mais tristes nem por isso menos ternas.

Receber de uma só vez todas essas impressões emocionais, devo frisar, é coisa de uma violência atroz. Após algumas horas sobre o solo tão familiar e tão distante, percebi o quanto ficara aturdido. Os parentes vinham buscar ternura, queriam saber sobre a vida no estrangeiro e dar as boas-vindas, mas eu, num estado de quase catatonia, era todo balbucios. Graças, a viagem e o fuso horário serviram como desculpa.

Resta que minha relação com a cidade em que cresci nunca foi fácil. Reação, imagino, de um espírito de natureza perambulante, flâneur malgré soi, inconformado com as barreiras que lhe impõe um modelo urbano escamoteador. No entanto, eu jamais o percebera. Pensava que meu problema com São Paulo fosse a poluição, o desafio hercúleo de deslocar-se, o desastre estético, a incompreensível ausência de qualquer forma de ordem urbana. A exemplo de muitos vizinhos, eu me enganava porque tinha o olhar por demais voltado para o alto, lá onde estão as estruturas circunstanciais, aquilo que, por natureza, é e será sempre frio e morto.

Por um lapso de percepção viciada, não entendi que o problema estava ali, logo à frente, na altura dos olhos e dos corações. Foi necessário interpor um oceano entre ela e mim para me dar conta dos fundamentos do conflito em que sempre vivi com a estranha São Paulo das buzinas e mutismos temíveis. Hoje, afastado, perdido no meio de um povo cujas gírias ainda desconheço, o que desenvolvi foi, finalmente, a resposta para o antigo dilema que parecia ter ficado em casa, lá atrás, esquecido no armário.

Eis que São Paulo, enxergo afinal, é uma terra refratária ao espaço público. Parece aplicar um estranho programa: se há alguma área de convivência, em que os olhares se cruzem e se ponham em comunicação, que seja suprimida; se há um parque, que os escapamentos, milhões de galões de gás, sufoquem os freqüentadores; se há calçadas, que se alarguem as avenidas até só haver espaço para o asfalto; se há comércio pelas ruas, que seja confinado a enormes condomínios com ar condicionado e música ambiente.

Enquanto isso, na curta semana que passei entre os meus, eu nutria o enorme desejo de observar os tipos, delinear os rostos, adivinhar pensamentos. É o que faço quando caminho sem destino, a passo lento, pelas ruas de Paris. Só que em São Paulo, os rostos, tipos e pensamentos se furtavam a mim. Subindo ou descendo as calçadas esguias, era impossível decifrar as idéias dos transeuntes: em seus rostos, transparecia apenas a preocupação de desviar dos buracos, dos postes, dos ambulantes e dos demais pedestres espremidos. Cada corpo, ao sair de um carro, de um ônibus, de um prédio, de um buraco do metrô, logo dava um jeito de, furtiva e melindrosamente, enfiar-se novamente em algum buraco do metrô, prédio, ônibus, carro. De um caixote para outro, sempre, tão célere quanto conseguisse. Descobri uma população encaixotada.

Essa conclusão não tem nada de agradável, é claro. Ao contrário, ela perturba sobremaneira. Repito, uma cidade se conhece pelo espaço público. Com o que, de repente, depois de uma vida, percebo que não conheço São Paulo. Como corolário, acredito que ninguém conheça. Pois a cidade não se deixa conhecer. Como se precisasse esconder o rosto, ela abafa a própria voz natural, uma vibração produzida a cada instante pelo flutuar de seus habitantes.

Mas São Paulo parece envergonhada por constituir-se de pessoas. E que não são poucas: dezenas de milhões de almas, veladas como as concubinas de um sultão. Uma multidão que não se olha, não se enxerga, não se cruza. Trocando em miúdos, não se conhece.

Moldar o homem

* Outro texto antigo, de janeiro de 2008, salvo do incêndio do Diplo. De lá pra cá, poucas coisas mudaram: o tal presidente já se casou com a tal modelo, já brigou com professores, já xingou um agricultor, já tentou colar sua imagem à de dois outros presidentes que estão muito na moda, já engrossou a voz pra cima dos vizinhos, já recorreu ao lado militar… e a popularidade continua caindo, caindo, caindo… *

A cidade já dorme, os jornais vivem a correria do último fechamento, a televisão passa programas mais ousados. Enquanto isso, uma última reunião ainda tem lugar; uma reunião de governo, mas importante demais para a indiscrição do palácio. Sendo assim, na sala de estar de um qualquer apartamento, com varandas que dão para um bulevar engarrafado, mais alto do que os postes e as copas das árvores, não é uma família que aproveita seu único momento de união para ver a novela, todos sentados no sofá; são homens e mulheres de testa franzida e braços cruzados, eles com gravatas coloridas, elas com cabelo cortado acima dos ombros. E discutem, nervosos, em torno de uma mesa de centro apinhada de papéis.

São jovens. Ninguém ali conta mais de quarenta e cinco anos. Alguns têm menos de trinta. Mesmo assim, são os assessores mais importantes do presidente. Mais, muito mais importantes do que a equipe econômica, para dar um exemplo que parece inverossímil. A economia vai bem, ora, quer dizer, mais ou menos. Isto é, vai bem para uns; para outros, vai mal. E mesmo que fosse mal para todos, no meio de uma depressão com inflação descontrolada, seriam esses os assessores que teriam a voz mais ativa na administração do Estado. Eles são basilares.

A reunião está marcada há tempos e deveria ser corriqueira. Mas começou no meio da tarde e até agora, quase madrugada, ainda vai se arrastando. O que era para ser uma mera vista de olhos sobre resultados felizes terminou como violenta lavagem de roupa suja. Desde as primeiras trocas de palavras. O tempo começara a fechar pouco antes da hora do almoço, quando chegou, via fax, a última pesquisa. Ao choque dos maus números, seguiu-se uma corrente de telefonemas e e-mails.

Você viu?

Vi. E agora?

Ou então:

Você viu?

Não. E aí?

C’est de la merde.

Os espíritos, a esta hora, já passaram da fase de exaltação, aquela em que uns e outros se acusam disso e daquilo, e é concreto o risco de passar às vias de fato. Agora, os espíritos já atingiram o ponto de suprema fadiga, em que a reunião se torna inútil, porque nada de racional poderá ser decidido. Mas ninguém quer admitir que é hora de interromper os debates. Amanhã, todos sabem, vão ouvir. Vão ouvir muito. De colegas, superiores, jornalistas e, claro, do próprio presidente, na figura de seu secretário particular.

Parece que as estratégias foram todas vãs. Os números insistem em associar a imagem do chefe de Estado a uma concepção antiquada da política: príncipe frio, distante, homem de puro cálculo e nenhum contato com a realidade do povo. Contra todos os esforços dessa equipe brilhante, formada pelas melhores cabeças das melhores escolas de marketing e recursos humanos, a população simplesmente não quer acreditar que está diante de um caso diferente. E agora?

Tudo já foi tentado. Ainda quando o hoje presidente era apenas um político ambicioso, decidiu-se voltar os canhões para o reclame de sua formação diferente. Ele não veio das mesmas escolas tradicionais de sempre, e isso é muito bom, porque significa que não terá as mesmas idéias tradicionais de sempre. Os mesmos vícios. Suas raízes não estão naqueles meios aristocráticos dos antecessores. É filho de imigrante, seu sobrenome logo o denuncia. Esse cara é novidade. Esse cara é renovação.

Deu certo. Na campanha, encarnou o jovem dinâmico e trabalhador, que entende as angústias de toda essa gente correta, que ganha a vida honestamente e não quer saber de confusão, insegurança, ameaças à humilde e digna mediocridade. Finalmente! Um candidato que torcia o nariz para aquela gente esquisita, com idéias esquisitas e ultrapassadas, aquela gente que dominava a política até então. Contra os velhos embates entre visões antagônicas do futuro, que ameaçavam arruinar a nação, apresentava-se alguém com a promessa única de construir o presente. E sobre quais bases? As da ordem a qualquer preço, da segurança em primeiro lugar, do trabalho acima de tudo. Pronto. Foi eleito.

O prestígio da equipe de mídia chegou ao ápice. A partir dali, eles teriam plenos poderes para decidir o que o presidente diria e faria; mas, principalmente, estava a cargo deles a definição de como o presidente diria e faria o que dissesse e fizesse. Anunciar maus resultados do consumo interno, por exemplo, nem pensar. Caberia ao velho ministro, ao jovem porta-voz, a qualquer um. Menos ao líder intocável. Este deveria trajar uma carapaça moral, para o bem da nação.

Logo após o feliz decreto das urnas, parecia uma boa idéia enviá-lo em férias – merecidas, diga-se – para uma ilha, em companhia de um grande empresário, admirado e invejado através do país. Parecia coisa que gente jovem, dinâmica, com a cabeça aberta, faz. Mas a população não entendeu assim. Pegou mal. Os jornais reclamaram muito. Vai saber, insinuavam, qual é o teor das conversas entre o novo presidente e uma raposa que investe em energia, transportes, mídia…

Passaram à tática seguinte para reforçar a imagem de saudável novidade que tentavam colar ao chefe. Quer dizer que o homem gosta de um jogging pela manhã? Pois então, vai correr diante das câmeras, vai discutir orçamento com a ministra da Cultura enquanto corre, vai convidar os presidentes de países vizinhos para acompanhá-lo na corrida, vai dar entrevistas entre um pique e outro. O importante é aparecer bastante no jornal do horário nobre, em roupas de ginástica e ao ar livre. Nada de se exercitar na academia do palácio, recluso, como faziam os outros!

Mais uma vez, face à desconfiança persistente do público, foi necessário alterar a estratégia. Um divórcio. Assim, escancarado. Quantos daqueles políticos tradicionais teriam coragem de se separar enquanto estivessem no cargo, arriscando o pescoço diante da opinião pública conservadora? Ora, nenhum. Pois um processo traumático desses ocuparia as manchetes, com certeza, por mais de um mês. Os índices de desemprego seriam relegados a uma nota de página par! Imagine, quanta identificação, quanta empatia, quando o povo soubesse que o presidente é tão normal, “como todo mundo”, que foi até traído pela mulher! Mas, estranhamente, houve pouco mais do que alguns comentários chistosos, nos botecos e nos cartuns, sobre o “reizinho corno”. E o assunto morreu.

Com poucos meses de governo, o presidente já foi visto comentando jogo de futebol, ensinando receita de batata assada, fazendo compras em supermercado. Cantou ao lado de seu ídolo, perdeu no tênis para o presidente do Congresso, pediu a um ditador africano, com educação, para que respeitasse os direitos humanos. Tudo detalhadamente noticiado, nos jornais, nas rádios, na televisão, na internet.

A última grande jogada, de que muito se orgulha o mais jovem dos membros da equipe, mentor da idéia, foi a manhã de domingo no parque de diversões. Quantas vezes um chefe de Estado, categoria humana grave e rígida, foi fotografado despencando em montanhas-russas ou abraçando o Pato Donald? Brilhante! Melhor do que isso, só mesmo aproveitar a ocasião para tornar público, como se sem querer, o namoro com uma manequim famosa-famosíssima. Genial. O mais indiferente dos públicos não escaparia.

Mas, como indica essa última pesquisa, nem o algodão-doce com a amada deu resultado. Para o cidadão médio, esse aí é igual a todos os presidentes anteriores. A mesmíssima coisa. Só um pouco mais saidinho. Não se sentem mais próximos de seu líder, nem sentem o líder mais próximo. E os brilhantes assessores se vêem sem resposta. Já passada a meia-noite, ninguém consegue pensar em nada. Sumiram as ideias. Todos estão exaustos. Olhos pesados, respiração curta. Ainda tentaram discutir mais uma resposta agressiva ao problema. Algo sobre um casamento. Com a modelo, é claro. Mas é impossível saber se a idéia é boa. Todas as outras pareciam ótimas, foram testadas no mercado internacional… enfim.

É tarde. Desistem. Os profissionais, cabisbaixos, tomam suas pastas e vão partindo. Um a um. Estão desanimados, nem procuram disfarçar as olheiras e os ombros encurvados. O que dizer desses consumidores? Ah, francamente! São imprevisíveis.

Sobre símbolos e eras

* Texto já um pouco antigo, mas que, creio eu, se tornou um pouco mais pertinente agora que os mercados caíram e o medo ficou explícito. É por isso que o republico. Ele apareceu originalmente no Le Monde Diplomatique, no final de 2007. *

Foto de Denise Límpias

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Este texto, confesso, é resultado de uma recaída metafísica. Talvez seja culpa do inverno que vai terminando, levando consigo a escuridão carregada de símbolos e significados. Tão contraditórias entre si, essas imagens de penumbra, que o espírito inquieto se flagra envolvido em perguntas e mais perguntas. No meu caso, começo a me questionar sobre o mundo, nosso mundo. Nós, como humanos, não apenas vivemos no mundo, mas o construímos, o projetamos, antes até de viver. Gostaria de poder saber como se dá isso. Por enquanto, tenho para mim que cada mundo humano se tece ao redor de um punhado de certezas transcendentais, a exemplo do tempo e do espaço. Essas certezas, em geral vagas e quebradiças, precisam se concretizar diante de nossos olhos, em grandes símbolos encarnados. Símbolos assim emudecem os espíritos em suas perambulações. E mais: reforçam na grande alma coletiva os valores de suas certezas.

Essas convicções podem tomar uma infinidade de formas. Religiões, ideologias, línguas, configurações morais. Por um lado, elas servem ao propósito de limitar nosso campo de ação. Sem dúvida. É o preço a pagar para que possamos viver juntos, pelo menos por um tempo. A convicção indica, da melhor maneira que pode, uma certa direção ao olhar de cada um. Podemos obedecer com maior ou menor rigor, podemos nos rebelar, pouco importa. Ali, nesse direcionamento tácito, está o que o grosso de uma pluralidade humana qualquer considera ótimo, normal ou absurdo em algum momento e território. É isso que lhe dá uma face. Quanto aos símbolos, podem entrar nessa categoria todas as formas que o ser humano encontra para se espelhar na realidade, isto é, imprimir os contornos de seu rosto ao entorno. Como os cães, que, ao urinar nos postes, demarcam o mundo que é deles. Os humanos não empregam a amônia, felizmente; mas fazem coisa muito parecida, usando o corte das roupas, o ritmo das músicas, as idéias vulgares com que inteligências tíbias constroem seus discursos inflamados. É a dimensão estética que permeia cada fibra de nossa existência, o campo geral de nosso diálogo com o exterior. Assim, ao contemplar o leque de símbolos de uma gente, temos dela uma estranha compreensão, absolutamente silenciosa. Qualquer tradução em palavras lhe compromete o valor.

De todos os símbolos, o mais vistoso e eloqüente é, com certeza, o monumento. Primeiro, porque ele já é feito com a finalidade, nem sempre consciente, é claro, de simbolizar alguma feição da existência plural. Um vestido bem desenhado se costura para o uso de uma mulher; mesmo a tela de um grande mestre é objeto de transações no mercado, e enfeitará a sala de estar de algum homem poderoso. Já o monumento é construído com o fito único de ser monumental, estar ali, diante dos olhos das pessoas, cuspindo sobre elas um fogo cerrado de símbolos, ao mesmo tempo históricos, políticos e estéticos. Em segundo lugar, o monumento não tem escapatória. Ele está ali e ponto. Solene, quase sempre de uma solidez opressiva e, não raro, vertical até esfumaçar as retinas. Os monumentos de outros tempos e mundos se misturam e confundem pela cidade, como se o passado fosse um só, todo feito de obeliscos. Os de hoje, nós os elevamos com os olhos voltados para uma grandeza que o futuro, estamos convictos, saberá reconhecer. Nossos monumentos têm um rosto todo próprio, mas, de fato, sua função jamais é inteiramente diferente.

As grandes cidades do mundo estão coalhadas desses símbolos de pedra, terra e metal. A Europa, em particular, não sabe o que fazer com tanto monumento. Uma pilha de resquícios esfacelados dos impérios já caídos. Santuários de que se apropriaram os turistas, esses bárbaros modernos entupidos de dinheiro. Testemunhas de uma história que quase ninguém sabe contar.

Dentre essas fabulosas capitais, Paris é a que mais cultiva sua vocação para o monumental. É a cidade que encontra sua identidade justamente nas linhas de avenidas que conectam um marco a outro, como se tentassem desenhar uma estrela de incontáveis lados. Tudo pode cair aos pedaços na França; só os monumentos parisienses precisam ficar de pé. Eis a diretriz gaulesa.

Todos sabem qual é o monumento principal desta cidade; sete mil toneladas de ferro, em vigas amarradas umas às outras para escalar 324 metros de céu. Quase um milagre da engenharia de sua época, que, espalhado pela área enorme que ocupa, oprime o solo não mais do que um homem sentado. A torre planejada por Gustave Eiffel domina toda a cidade. Faz-se enxergar de qualquer canto, até mesmo alguns subúrbios distantes. A despeito da altura e do peso, sua forma esguia transmite uma leveza serena. Ocupa um volume considerável roubado ao ar, mas compõe-se majoritariamente de vazio. Puro nada, como o dos átomos, o dos bancos, o das multidões.

Eis aí uma das obras maiores e mais simbólicas de uma época encerrada sem notarmos, absortos que estávamos nos traumas que esse mundo se ofereceu. Um capitalismo escaldante, que o Ocidente superou ou preferiu esquecer. Uma força possante, irresistível. Arrasava tudo de vetusto e mesquinho, em nome de uma verticalidade que a torre Eiffel não encarna mais do que a teia negra de caminhos de ferro, a fumaça grossa dos navios a vapor, os primeiros movimentos vanguardistas da arte. Esse capitalismo, antes de querer derrubá-lo, o implacável Marx aplaudiu com efusão. Porque o teórico da revolução reconhecia ali um orgulho de si próprio inconcebível para nós, senão por seu legado: a torre; os palácios de exposição; as cidades gigantescas, irrefreáveis; os versos de louvor à máquina.

O que mais causava horror a esse capitalismo da absoluta dinâmica era a estabilidade. Para seus heróis, a segurança que ela oferece era a morte; um atestado de mediocridade, eco de um passado aristocrático que manteve o mundo idêntico a si mesmo durante quase um milênio. Os grandes capitalistas daquela era, cujo maior herói era o engenheiro, declararam guerra à estabilidade e à segurança. Buscaram o risco, quase a loucura. Derrubar e construir, invadir e conquistar, a qualquer custo, sem respeito por nada, nem por ninguém. Um mote seco e claro. Quem vivia segundo outro espírito encheu-se de horror. Guy de Maupassant, reza a lenda, almoçava todos os dias no Jules Verne, restaurante do segundo andar da torre, porque era o único lugar da cidade de onde não era obrigado a vê-la. Considerava-a uma aberração deplorável. Verdade ou não, o fato é que de lá ele não podia se furtar a contemplar uma antiga cidade sendo arrasada para dar lugar a outra, veloz e vertiginosa; uma cidade que não temia a aniquilação imposta pelo capital a seu quotidiano milenar.

Tudo isso, porém, ficou no passado. Esse capitalismo das sucessivas maravilhas resultou em guerras, revoluções reacionárias (sic), bombas de dizimar gerações e gerações. O homem que sobreviveu ao paroxismo ensandecido do modernismo envergonhou-se de suas ambições desabridas. Depois de Auschwitz, fez-se necessário construir um novo mundo, com um paradigma que se substituísse à voracidade. Qual é esse paradigma? Ora, é o oposto do anterior. Ou seja, o receio. Nosso tempo, assim, abriu mão da verticalidade, a não ser aquela comportada, dos espigões perfilados. Alguns brilhantes, outros opacos, mas sempre executados de acordo com as regras mais seguras da engenharia, com vistas a uma eficiência indigitada. Gigantes de concreto e vidro, enfim, mas com as pernas muito bem fincadas no chão. O maior dos males, valha-me Deus!, para nosso tempo, é a instabilidade. Uma doença cuja expressão mais assustadora é a inflação. O dito dragão é o equivalente econômico da erosão, no domínio moral, dos valores de um passado recente. Uma ameaça constante. Exige postura alerta e agressiva. Um contexto fundado sobre o receio de perder não pode, em hipótese alguma, tolerar a inflação.

A ambição vertical e demolidora, que as potências do passado abandonaram nas últimas décadas, subsiste apenas em países que, até há pouco, eram considerados pobres e atrasados. O carro-chefe desse ideal sobrevivente é, sem novidades, a China. A terra das antigas dinastias retraça o caminho do Velho Continente. Uma usina gigantesca, monstruosa, que inunda países e desloca povos inteiros, misturando e desmanchando seus tantos dialetos e costumes. Eis onde querem buscar sua energia. Um estádio embrulhado em cordas sintéticas, indevassável, indefinível, irreconhecível. Um palácio de esportes para esconder o louvor da derrubada e reconstrução. São os orientais, hoje, que não respeitam nada do que já há; pensam no que ainda haverá, e interpretam o presente como mera matéria-prima, tão bruta e maleável como a areia da praia.

Retornemos à torre Eiffel, construída para celebrar a Exposição Universal de 1889, realizada em Paris. Nesse gênero de evento, típico da belle époque, cada país exibia suas novidades mais impressionantes, para escancarar, diante de rivais do mundo inteiro, como era veloz seu progresso técnico. Não há nada parecido em nosso mundo. Há, sim, grandes feiras temáticas, em que as empresas montam suas barracas e alardeiam seus produtos, no esforço de garantir a eles um confortável naco do mercado. Essas feiras são, também, repletas de novidades, por certo. Mas são horizontais, comportadas. Vastas áreas protegidas da chuva, por onde uma multidão de consumidores pode passear sem receio de levar algum susto.

Não serão esses eventos tão bem organizados, eles que haverão de proporcionar a ocasião do nascimento de algo monumental, como as exposições do século XIX nos legaram a torre Eiffel. Nem quero insinuar que deveriam! Essa aí é monumento, logo símbolo, de outro tempo. Hoje, é administrada, e com grande competência, por uma empresa de capital misto cujo gráfico de lucratividade apresenta, há anos, “bons números”. Garante ao país a estabilidade de uma renda turística regular e farta. E, naturalmente, do merchandising. Esse aí, sim, é um grande símbolo e monumento de nossa era.

Entrevista não de todo impossível

O que segue são as palavras de um jovem do sexo masculino, entrevistado na penumbra, para garantir o anonimato, e com a voz embaralhada eletronicamente, para evitar a identificação. É um depoimento “real”, colhido durante uma entrevista informal sobre as transformações de que a nova geração é, ao mesmo tempo, vítima e protagonista. As declarações foram tomadas em meados do último ano, mas o entrevistado, empregado numa corretora da valores da Bovespa, só hoje autorizou sua publicação, por temor de represálias que não foram especificadas.

* * *

- Que jornal você anda lendo?

- Na verdade, desde que saí da casa dos meus pais, nunca assinei um jornal…

- Desculpe interromper: quando foi isso?

- Foi uns… cinco, seis anos atrás. Eu vi que já podia me sustentar, se fizesse alguns sacrifícios, mas minha renda era baixa demais, o aluguel um pouco salgado, e ainda tinha a gasolina, a cerveja… Acho que dá pra dar uma idéia. Não é que eu não gostasse de ler jornal. Ao contrário, eu adorava, lia desde criança, o Kfouri, o Nassif, o Cony, todo mundo. Mas eu precisava economizar e achava que poderia ler os jornais que chegavam no trabalho. Só que… assim…

- Não é a mesma coisa.

- Pois é. Ler em casa, tomando café… poder dobrar, separar os cadernos, sujar o papel de comida… E, no trabalho, você tem que manter uma certa postura, quer dizer… Você está lendo, não é como em casa, porque… Lá, você lê jornal e, no serviço, você lê o que está no jornal, entendeu?

- Em casa você não lê o que está no jornal?

- Não é isso, acho que me expressei mal. Em casa, o jornal é todo seu, mesmo que você divida ele com a família. E é uma coisa só, não é só um monte de notícias e colunas. É diferente, quer dizer…

- Mas as notícias são importantes também, não? Isto é, a informação. Como você fazia para se informar?

- É isso… informação, sim, claro, eu tinha. Eu via o jornal no trabalho e, para as coisas mais especializadas, do mercado, a gente recebe um clipping. Acho que o jornal em si era para saber um pouco do resto do mundo. Futebol, por exemplo.

- E a internet?

- Ah, sim, eu usava muito, claro. Mas ainda não era um substituto para o jornal, como é hoje. Quase não tinha notícia de graça, o pagamento não era seguro, aliás, continua não sendo, e os blogs não eram nada confiáveis.

- E agora…

- Ah, agora a internet é meu contato com o mundo, né? Nem TV, eu assisto mais!

- E você se considera um autêntico representante da “geração Y”?

- Nunca entendi direito o que isso quer dizer…

- A geração de pessoas sempre conectadas, que usam MSN, Orkut, Facebook, iPod…

- Não sei, acho que não. Até que eu não sou tão conectado assim. Acho que, para alguém que acorda todas as manhãs há décadas e vai buscar o jornal na porta, eu devo parecer um monstro informatizado, viciado em internet… Mas não sei, não me sinto assim. Aparece tanta coisa nova na internet, todo dia, que eu me sinto o maior dos reacionários com meu velho e-mailzinho. Nem blog eu tenho! E pior… não escrevo daquele jeito estranho, como se chama, mesmo?

- Mas é pela internet que você se informa, conversa, se diverte…

- Não é bem assim. Eu prefiro mil vezes conhecer gente no bar que na internet. Eu converso pelo Skype e pelo MSN por pura conveniência, isso não quer dizer que seja minha primeira opção…

- Você já fez amizades pela internet?

- Já, muitas! Minha namorada, aliás, eu conheci num fórum de discussão do Iron Maiden.

- Você começou nossa conversa dizendo que gostava de jornais, mas nunca assinou…

- Compro na banca, de vez em quando.

- Quando, por exemplo?

- Quando meu time ganha campeonatos, por exemplo. É uma lembrança que a gente tem que guardar. Não é a mesma coisa imprimir do site, concorda? Ou então, às vezes uma capa me seduz, tipo… quando promete uma série de textos com um tema importante. Aí eu compro como se fosse uma revista especializada.

- E como é essa experiência? Você disse que ler o jornal no trabalho “não é a mesma coisa”…

- É mesmo. Eu tinha mais coisas para dizer sobre isso. Nos fins-de-semana, eu vou almoçar com minha mãe. Família italiana, sabe como é… E então, antes do almoço, eu me sento no sofá e fico lendo o jornal que ela assina. E é nessas horas que eu sinto o quanto é diferente…

- Melhor?

- Não é por aí… é diferente. Às vezes, eu leio versões de jornal na internet que são a edição impressa escaneada. E não é a mesma coisa. Acho que eu já disse que o jornal é uma coisa só… Ele é um corpo inteiro e eu tenho a sensação de que, quando estou lendo jornais, mesmo que eu pule partes, depois volte, pare a leitura de um artigo no meio, quer dizer… o que quer que eu faça, estou com um jornal na mão… Nunca tive essa sensação com notícias que li na internet. No computador, eu sempre busco a notícia individualmente, ou o artigo de opinião, ou sei lá. Não é que seja melhor ou pior, é diferente, só isso.

- Mas você está mais acostumado com…

- O jornal, porque cresci com ele. É verdade, eu me sinto mais confortável lendo jornal, mas não é disso que estou falando. O jornal é cheio de coisas que eu não quero saber, que eu não tenho a menor vontade de ler, não me interessam, mas que estão ali… E mesmo quando eu passo por cima, não olho, enfim, não posso fazer nada contra as partes que não me interessam. Elas existem e pronto. São as partes do mundo que eu não controlo nem de longe, e nem por isso deixam de existir.

- Você se sente mais humilde, é isso?

- Acho que você está colocando palavras na minha boca [riso], mas é isso, uma lição de humildade. Só que o melhor de tudo é que às vezes eu acabo até lendo alguma dessas notícias que não me interessam e eu nunca tinha tido noção do quanto isso é diferente, quer dizer… pra mim é diferente, para os mais velhos é a coisa mais banal do mundo. Quer ver? Outro dia, meu time ganhou um campeonato importante e eu comprei o jornal. Na mesma página que dava notas aos jogadores, embaixo, tinha os resultados do turfe. Eu sempre achei essa palavra engraçada, falando nisso, quer dizer… Corrida de cavalo se chama turfe… Mas olha só que estanho… Eu não sei nada sobre aqueles cavalos, mas só de ver os resultados, números, nomes de puro-sangue, tudo aquilo, comecei a viajar. Fiquei imaginando aquelas pessoas todas, aposentados, desempregados, viciados, todo mundo nos fundos do jóquei, fazendo fila para apostar, rasgando a ficha quando perde dinheiro… E eu nem estava prestando atenção, quer dizer… puxa, entende?

- Mas a net é toda interligada, uma coisa leva à outra…

- Não sei até que ponto tudo é interligado… O que isso quer dizer, “interligado”? Sei lá, só sei que quando quero ver uma notícia, não vou ficar clicando em todas as palavras sublinhadas que aparecem. Olha, não quero parecer nostálgico, mas só vou dizer uma coisa: agora que todo mundo diz que os jornais estão morrendo, eu começo a ter arrependimentos. Se tivesse alugado o apartamento num bairro mais barato quando fui morar sozinho, poderia ter sobrado dinheiro para tomar mais cerveja e, ainda, assinar um jornal e uma revista. Agora é tarde, né? Os jornais vão acabar e, de toda forma, já ficaram tão ruins, não acha? Mas que sinto uma certa pena de não receber aquele resumo do mundo todo dia em casa, pode ter certeza.

- Mas esse resumo do mundo, como você diz, não é uma coisa meio autoritária? Alguém decidiu o que você leria e é isso que você vai ler. A internet costuma ser considerada mais democrática, porque tem a coisa da interatividade…

- Claro, claro, sem dúvida. É uma coisa totalmente diferente. Mas eu confesso que não me sinto capaz de decidir eu mesmo como vou resumir o mundo das notícias. Precisa ter uma formação muito fuderosa para saber escolher por conta própria, quer dizer… Não que isso seja muito diferente de como as coisas eram antes, com os jornais, né? Os donos do jornal escolhem como as coisas vão ser ditas e você precisa ter uma formação muito fuderosa para não cair na manipulação… autonomia não é para qualquer um, né?

- Mas na internet o jornalista não pode só dizer o que quer… O leitor responde, reage, contradiz o autor…

- Você está falando dos comentários das notícias? E dos posts? Tem alguma coisa boa aí?

- Claro que tem, tem coisa muito boa…

- Pode ser. Mas como é que eu vou saber? Entro na página do jornal, tem a notícia, e embaixo tem “dona fulana” e “seu sicrano” criticando as informações do jornalista. Que base eu tenho para julgar? E se o comentarista é muito bom, sei lá, com certeza ele só vai embaralhar mais a minha cabeça, porque ele sabe mais do que eu naquele assunto…

- Mas você não pode negar que isso te abre um campo de possibilidades. Não é só aquela voz única, senhora da razão, disseminando sua sabedoria. Do outro lado, eventuais objeções e emendas vêm à tona muito mais facilmente…

- Não estou negando. Com certeza, não estou negando. Mas continuo achando que só quem tem uma formação muito fuderosa consegue se orientar no meio de tanto debate!

- O que você quer dizer com “formação muito fuderosa”?

- Putz… sei lá. Saber tudo sobre tudo, vai! [riso]

- A possibilidade de todo mundo escrever no seu blog, comentar no blog dos outros, intervir nas notícias dos jornais, nos verbetes de dicionários, nos artigos da Wikipédia, além de poder fazer suas próprias reportagens por podcast, por vídeo à la Youtube, postar as próprias fotos, tudo isso você não acha que torna mais difícil a manipulação da opinião e da informação?

- Olha, você está falando com alguém que trabalhou a vida inteira no mercado financeiro. No meu metiê, a informação pode enriquecer ou empobrecer alguém em poucos minutos. Um telefonema pode derrubar uma empresa, uma frase no Twitter pode arruinar um banco, qualquer boato pode me levar a ter um ataque cardíaco. Eu acho o seguinte: quem tem mãos manipula. Quem tem mãos grandes manipula muito. Não é perfeitamente lógico? Dificultar a manipulação? Só se for mais difícil se afogar no meio do Pacífico que numa pia.

- Mas então nada muda?

- Como não? Sair de uma pia e cair no oceano não é uma mudança? [risos] Agora, falando sério, estou com medo de parecer um conservador renhido nessa história. Logo eu, que trabalho com dois monitores na minha frente, com a cotação de várias bolsas e commodities em tempo real. Já me aconteceu de intermediar uma operação que mudou o controle acionário de uma empresa, tudo bem que mais para pequena, mas foi via comunicação instantânea. Opa, estou na defensiva…

- É uma questão de escala, pelo que entendi…

- Não! Com certeza, não. Se fosse assim, eu acharia que ler jornais e ler o que está nos jornais é a mesma coisa, e ler notícias pela internet, idem. Lembra aquelas imagens dos operadores de bolsa fazendo gestos com a mão, empurra-empurra, segurando um telefone gigantesco no ouvido? Será que é só uma questão de escala que isso exista cada vez menos? Eu acho que não, quer dizer… Olha, se tem uma coisa que eu aprendi vendo as ações mudarem de mão é que nunca, nunca, nunca é só uma questão de escala. Se parece que é só quantitativo, é porque ainda não se chegou ao ponto de sela, quando os sinais se invertem. Sabe?

- Então você admite que é uma revolução.

- Posso perguntar aos universitários? [risos] É uma revolução, OK, mas isso significa que o mundo vai ter que aceitar ficar de ponta-cabeça [N.T.: de cabeça para baixo] por algum tempo. Vai encarar? Daqui a pouco ninguém mais vai sentir saudade daquele jornal inteirinho, cheio de coisas que a gente não queria e não esperava, porque pode conseguir exatamente o que quiser, quando quiser, na internet. Será que só eu vou ser o ultrapassado?

- Bom, toda a geração mais velha…

- Claro, claro, mas você sabe: “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Isso, quem disse foi Keynes. Mas eu não sou keynesiano, viu?

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